O novo documentário da Max, apelidado pelos fãs brasileiros de “Kanye West: Vidas em Colapso”, caiu como uma bomba na cultura pop e reacendeu um debate delicado: até que ponto é legítimo transformar o colapso de uma pessoa em entretenimento?
A produção acompanha os últimos seis anos da vida de Kanye West (Ye), período em que o rapper viu ruir seu casamento com Kim Kardashian, perder contratos bilionários na moda e enfrentar, em público, uma deterioração evidente de sua saúde mental.[3] O documentário é ligado ao projeto internacional conhecido como “In Whose Name?”, que se vende justamente como um retrato cru da queda de um dos artistas mais influentes da música contemporânea.[3][4]
Do gênio ao abismo: a narrativa da derrocada
O filme se concentra na fase em que Kanye, que já foi considerado o homem negro mais rico dos Estados Unidos por causa de contratos com grandes marcas de moda e parcerias milionárias, começa a perder tudo à medida que suas crises se agravam e declarações controversas explodem na mídia.[1][3] A montagem reforça a sensação de queda: de império global a isolamento, cancelamento e colapso emocional.
Em trechos já amplamente comentados, o documentário mostra discussões internas em que pessoas próximas alertam Ye de que ele vai "perder tudo" se continuar naquele ritmo – alerta que, na prática, se cumpre.[1][4] A câmera acompanha também o momento em que Kim Kardashian entra com o pedido de divórcio, marcando o fim de um casamento de mais de uma década e o rompimento de uma das duplas mais midiáticas da cultura pop recente.[4][1]
O tom é de observação frontal: vemos o artista falar abertamente sobre ter "perdido a esposa, o melhor amigo, a mãe e a própria sanidade", numa espécie de inventário doloroso da própria vida.[1] Ao mesmo tempo, o doc relembra o trauma da morte de Donda West, mãe do rapper, que já havia sido tema central de sua obra e segue como uma ferida aberta.[1]
Saúde mental em evidência – e no limite da exploração
É exatamente nesse ponto que o documentário passou a enfrentar fortes críticas nas redes brasileiras. Para muitos espectadores, a produção da Max cruza a linha tênue entre denúncia e espetacularização do sofrimento psíquico.
A obra expõe momentos de paranoia, ansiedade e episódios claramente ligados à bipolaridade, condição que o próprio Kanye já admitiu enfrentar.[4][1] Na narrativa, o diagnóstico aparece como eixo central para explicar a escalada de polêmicas, colapsos públicos e decisões impensadas que custaram ao artista contratos, reputação e relações pessoais.[3][4]
Críticos brasileiros apontam que, embora o documentário mostre a dimensão da doença e a falta de tratamento adequado ao longo dos anos, a estética da obra – com foco em cenas de descontrole, brigas e declarações extremas – corre o risco de reduzir uma condição complexa a momentos "virais" de queda.[1][4] O resultado, para parte do público, é a sensação de que a produção transforma o sofrimento mental em espetáculo.
Comparações com “Jeen-Yuhs” e mudança de olhar sobre Kanye
O novo doc inevitavelmente é comparado por fãs a “Jeen-Yuhs – Uma Trilogia Kanye”, disponível no Brasil pelo Apple TV+, que acompanha duas décadas da trajetória do rapper em um recorte bem mais intimista e focado na ascensão artística.[2] Enquanto "Jeen-Yuhs" mostra o jovem produtor lutando por espaço, criando discos icônicos e se consolidando como gênio da música, "Vidas em Colapso" assume o lado oposto da curva: o da implosão pública.[2][3]
Essa mudança de perspectiva é um dos motivos pelos quais o documentário da Max chamou tanta atenção no Brasil. Muitos fãs que conheceram Ye pela genialidade musical e pela influência na moda agora se deparam com um retrato bruto de seus piores momentos – e se perguntam até que ponto isso ajuda a entender o artista ou apenas reforça seu rótulo de figura "problemática".
Repercussão no Brasil: entre empatia e fadiga do escândalo
Nas redes sociais brasileiras, o documentário vem sendo discutido a partir de dois eixos principais:
1. Empatia e identificação: Há quem veja valor em expor de forma direta o impacto da bipolaridade e de traumas não tratados na vida de uma pessoa, ainda que ela seja milionária e extremamente famosa. Para esse grupo, a obra escancara como a indústria do entretenimento lucra com o brilho do artista, mas é menos eficiente em oferecer suporte quando ele desmorona.[1][3]
2. Fadiga do escândalo e sensação de exploração: Outro público – inclusive muitos brasileiros – demonstra cansaço em ver Kanye apenas pela lente do escândalo. Depois de anos de manchetes sobre polêmicas, cancelamentos e declarações controversas, a impressão é de que o doc apenas organiza em formato cinematográfico aquilo que já virou assunto exaustivo na imprensa, sem oferecer um olhar realmente novo ou responsável.[3][4]
O papel do diretor e o acesso irrestrito ao colapso
Um ponto frequentemente destacado é a figura do jovem diretor Nicolas Ballesteros, que, segundo o material de divulgação internacional, acompanhou Ye em jornadas de gravação de até 15 horas por dia durante seis anos, presenciando "brilho e colapsos, triunfos e tormentas".[4] Essa proximidade rende um nível de acesso raro, mas também levanta questionamentos éticos: quando o documentarista deve parar de filmar?
A própria campanha em torno de "In Whose Name?" promete um filme "chocante"[3], o que reforça a percepção de que a narrativa é construída para impactar, mais do que para cuidar do retrato de uma pessoa em sofrimento.
O que fica para o público brasileiro
Para o público de cinema e TV no Brasil, “Kanye West: Vidas em Colapso” chega como mais do que um simples making of de escândalos: é um espelho incômodo de como consumimos a vida de celebridades em tempo real. Ao mesmo tempo em que oferece um registro poderoso da derrocada de um dos artistas mais influentes do século, o doc força a pergunta: estamos assistindo para compreender a doença – ou para ver até onde um ídolo consegue cair?
No fim, a repercussão brasileira mostra que o tema central da obra talvez não seja apenas Kanye West, mas o próprio público e a indústria que transformam cada crise em conteúdo. E é justamente por isso que o documentário, goste-se ou não, virou um dos assuntos mais comentados no streaming entre fãs de cultura pop no país.